sexta-feira, 1 de junho de 2012

Jogo de Culpa

Desde o Natal, em 1999 quando ganhara um kit de mágica do vô Anastácio, Alberto deixara todas as suas decisões importantes a cargo dos dados. "Bato no Rogério ou não bato? Se der mais que 4 eu bato, se der menos vou pra casa e esqueço." "Deu 4, e agora?"
Já mais moço, escravo de Afrodite "Beijo a Laurinha ou não beijo? Beijo só se der 6, só se der 6... 6!"
Incrível, mas ninguém nunca percebera, até o dia do casamento. 
Sentado no quarto de hotel, jogava energicamente o dado, de todas as formas possíveis, rodopiando, quicando, simplesmente soltando-o, sendo interrompido apenas pela adentrada eufórica da progenitora.
- Beto! Mas o que é que você está fazendo, estou escutando esse dado quicar já tem mais de hora! E Jesus Cristo! Olhe só pra você, nem tomou banho ainda, a uma hora dessas Laurinha já deve estar entrando no carro! Vamos, pare de brincar com esse dado!
Alberto olhou inexpressivamente para dona Eugênia, que botava os bofes de fora e sapateava de canto a canto do quarto. Parou por um instante, e olhou para o dado alguns segundos antes de dizer: 
- Alberto, não me diga que você ainda decide as coisas no dado!? Você tem 27 anos, homem, 27 anos decididos em números de dados! Eu devia tê-lo levado naquele Doutor amigo da Jandira, ela sempre me disse que tinha algo errado com você, por Deus, porque foi que eu não te ouvi, Jandira? Por quê? Agora você está decidindo o que? Posso saber? Se casa ou se não casa? O que eu fiz pra mer...
Neste momento, Eugênia é interrompida abruptamente pelo filho, ainda inerte, como se só seu corpo desprovido da suposta alma ocupasse aquele espaço:
- Isso. Bingo!
- Bin o quê? Isso só pode ser brincadeira, você está decidindo o seu casamento nos dados? E decidindo de que forma, se você já pediu a moça, imagina que vergonha, devolver a Laurinha na porta do altar, faz quanto tempo que vocês estão juntos? E tem mais, você já desonrou a moça, quem é que vai casar com ela se você não casar, meu filho, você vai viver com essa culpa?
Alberto continuou a jogar os dados.
- Moleque! Vou ter que puxar sua orelha depois de 10 anos novamente? Você quer me matar do coração? Quem é que decide a vida em dados, minha Nossa Senhora! 
- Todos tem alguém para culpar, minha mãe, faz-nos sentir melhor a respeito das decisões erradas que tomamos. Meu pai culpa o governo, a senhora culpa a Deus, e eu, como não acredito em ambos, culpo os dados.  E tem outra coisa também, mãe, hoje, ninguém casa virgem.

terça-feira, 8 de maio de 2012

- Vamos pra Cannes, amigo.
- Vamos pra cama.
- Ok.
- Dormir e sonhar.
- Sonhar e não dormir.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

JustineJustineJustinejustinejustinejustine just in me.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Lições do Século XXI - Humilhação

Fato 1 - 10 Anos - Condomínio Vizinho

Conjuntos habitacionais, de qualquer natureza, qualquer classe social, tem uma peculiaridade em comum: gangues infanto-juvenis. Uma das coisas mais emocionantes de se fazer era visitar a gangue vizinha, de forma amistosa, claro.

Em uma destas visitas, o conjunto feminino da minha gangue resolveu pular elástico com o da outra, fomos observadas por dois garotos, meu amigo Vitor Hugo, e um rapaz do outro condomínio, que eu não conhecia, mas na ocasião, achei muito bem apessoado. A presença dele fez com que eu me sentisse filmada, não queria olhar para a câmera, tentei ignorar a presença dela e parecer a mais exímia e graciosa puladora de elástico.

Algumas espiadas escapavam, olhares milimétricos, só para ver se o interesse era recíproco, e ele olhava. Olhava até que insistentemente, o que me deixava deveras tensa, e empolgada ao mesmo passo. Me olhou até a brincadeira cessar, levantou-se, e seguiu andando, virou-se uma última vez para atrás, e sumiu por entre os blocos vermelhos.

Mal pude esperar que ele desaparecesse por completo, em frações de segundo estava sentada ao lado do Vitor, eufórica, esbaforida, adrenalina física e mental.

- Vitor, porque é que seu amigo não parava de me olhar?

- Han? Tá Louca? Nada a ver.

- Que nada a ver o que? Você acha que eu não vi, ele não parou de olhar, nem um segundo, até quando ele foi embora olhou de volta. O que ele falou?

- Não falou nada, menina, para de encher o saco.

- Não me faz de idiota, eu vi ele olhando, vi ele falando com você, o que ele disse?

- Quer saber mesmo?

- Lógico, se não quisesse nem perguntava, er.

- Aff, não vou falar, você não vai querer saber, vai brigar comigo ainda.

- Ah Vitor! Fala logo!

- Tá! Tá bom! Que saco! Ele falou que você era muito feia! Que parecia uma macaca pré histórica do livro de História dele!


Acabei por não mencionar antes, o Vitor Hugo era muito amigo meu.

terça-feira, 27 de março de 2012

Lições do Século XXI - Remorso

Essa é de 1999, mas vivi muito mais depois, do que antes de 2000, a balança pendeu para o século XXI.
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Fato 1 - 6 anos - Escola Primária

Eu estava escovando os dentes com o dedo indicador, pois havia esquecido a escova. Henrique, um amiguinho nipônico, veio ao meu encontro. Na época, sem consciência de 2/3 das regras de conduta de normalidade estabelecidas pela sociedade, algo apropriado para idade, nem me senti constrangida ao me dirigir a ele com a boca escorrendo água de torneira e espuma de pasta junto a minha própria saliva.
Henrique se aproximou, entregou-me uma folha de caderno dobrada e se virou, entrou de volta pelo corredor de onde havia saído, andando rapidamente, diria que quase correndo.

Desdobrei a folha:
Um carro, desenhado num traço possivelmente feito à régua, a não ser os pneus sob a grama, flores, árvores com maçãs, o conjunto típico que forma os primeiros rabiscos inteligíveis de uma criança.

Procurei Henrique, perguntei, no meu tom insensível de menina ainda desconhecedora dos feitiços de Eros:
- Que que isso?
- Uma carta.
- Isso não é carta, é desenho, você nem sabe escrever.
- Não mesmo.. foi por isso que eu desenhei.
- ...
- É uma carta de amor.
- Que que carro tem a ver com amor?
- Era a coisa mais bonita que eu sabia desenhar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Eu Acredito na Beleza das Mentiras


Curta inspirado na crônica "Orácio, sem H", que escrevi há algum tempo, perdoem o amadorismo.

Link da crônica: http://viviancampos.blogspot.com/2009/04/oracio-sem-h.html

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Nota Feliz

Escrevo pois minha alma não cabe em mim,  não cabe à mim, e sim a cada pedaço desta terra que pisei. Escrevo pois meu coração grita dia a dia, e, civilizado que é, abafa as notas todas, que ficam à resguarde da memória. Na caneta corre sangue das minhas artérias, da minha euforia, do meu ódio, do meu amor e do meu medo. Não vivo para escrever, escrevo para viver plena e eternamente, pois o tempo, carrasco da sanidade, da memória, dos olhos e ouvidos, apaga o menor rastro de qualquer coisa, a não ser as letras do meu verso.