Desde o Natal, em 1999 quando ganhara um kit de mágica do vô Anastácio,
Alberto deixara todas as suas decisões importantes a cargo dos dados.
"Bato no Rogério ou não bato? Se der mais que 4 eu bato, se der menos vou
pra casa e esqueço." "Deu 4, e agora?"
Já mais moço, escravo de Afrodite "Beijo a Laurinha ou não beijo? Beijo
só se der 6, só se der 6... 6!"
Incrível, mas ninguém nunca percebera, até o dia do casamento.
Sentado no quarto de hotel, jogava energicamente o dado, de todas as formas
possíveis, rodopiando, quicando, simplesmente soltando-o, sendo interrompido
apenas pela adentrada eufórica da progenitora.
- Beto! Mas o que é que você está fazendo, estou escutando esse dado quicar
já tem mais de hora! E Jesus Cristo! Olhe só pra você, nem tomou banho ainda, a
uma hora dessas Laurinha já deve estar entrando no carro! Vamos, pare de
brincar com esse dado!
Alberto olhou inexpressivamente para dona Eugênia, que botava os bofes de
fora e sapateava de canto a canto do quarto. Parou por um instante, e olhou
para o dado alguns segundos antes de dizer:
- Alberto, não me diga que você ainda decide as coisas no dado!? Você tem 27
anos, homem, 27 anos decididos em números de dados! Eu devia tê-lo levado
naquele Doutor amigo da Jandira, ela sempre me disse que tinha algo errado com
você, por Deus, porque foi que eu não te ouvi, Jandira? Por quê? Agora você
está decidindo o que? Posso saber? Se casa ou se não casa? O que eu fiz pra
mer...
Neste momento, Eugênia é interrompida abruptamente pelo filho, ainda inerte,
como se só seu corpo desprovido da suposta alma ocupasse aquele espaço:
- Isso. Bingo!
- Bin o quê? Isso só pode ser brincadeira, você está decidindo o seu
casamento nos dados? E decidindo de que forma, se você já pediu a moça, imagina
que vergonha, devolver a Laurinha na porta do altar, faz quanto tempo que vocês
estão juntos? E tem mais, você já desonrou a moça, quem é que vai casar com ela
se você não casar, meu filho, você vai viver com essa culpa?
Alberto continuou a jogar os dados.
- Moleque! Vou ter que puxar sua orelha depois de 10 anos novamente? Você
quer me matar do coração? Quem é que decide a vida em dados, minha Nossa
Senhora!
- Todos tem alguém para culpar, minha mãe, faz-nos sentir melhor a respeito
das decisões erradas que tomamos. Meu pai culpa o governo, a senhora culpa a
Deus, e eu, como não acredito em ambos, culpo os dados. E tem outra coisa
também, mãe, hoje, ninguém casa virgem.